FAZER ERGONOMIA NO BRASIL
A EXPERIÊNCIA DA ERGON PROJETOS

Venétia Santos
Ergon Projetos de Ergonomia e Design Ltda
e-mail: ergon@ergonprojetos.com.br

 

A Ergonomia desenvolveu durante os últimos 50 anos uma metodologia científica para avaliar o trabalho visando a sua transformação. Através desta metodologia foi possível demonstrar cientificamente as conseqüências do projeto ou planejamento incorreto do trabalho na saúde dos trabalhadores. Foram tratados grandes temas como a manipulação e intoxicação por agrotóxicos, a exposição aos aerodispersóides ,a manipulação de cargas e esforço físico, o trabalho em altas temperaturas, a exposição as vibrações de baixa freqüência e outros.

Hoje a Ergonomia se preocupa em contribuir mais efetivamente na transformação do trabalho, não só fazendo avaliações mas participando no processo projetual da situação futura, trabalhando lado a lado com os engenheiros de processo, de automação, engenheiros de produção e produto e diretores das empresas.

Visando esta participação e a atuação em conjunto com outras áreas de competência, a Ergonomia se propõe a desenvolver novos métodos, a adquirir competência em negociação e a desenvolver uma rede de interação com os setores da empresas e com os seus fornecedores. Tudo isto em prol de sua participação na evolução do trabalho.

Após dez anos de experiência atuando como consultores da ERGON PROJETOS verificamos que no Brasil existem ainda grandes limitações para a implantação da Ergonomia nas empresas.

O Ergonomista é ainda um desconhecido, assim como os serviços que presta. Quase sempre não existe demanda espontânea em Ergonomia, bem como não existe por parte de outros profissionais uma previsão de trabalho conjunto, ou participação dos Ergonomistas em Projetos.

O Ergonomista atua hoje provocando a demanda e definindo cada vez mais seus serviços junto a outros profissionais, de maneira a garantir sua participação desde o início do projeto de novas situações de trabalho. A entrada da Ergonomia após a formalização do projeto é restrita e sem grandes resultados, uma vez que sua atuação se resume a uma consultoria e /ou ao fornecimento de dados sobre a atividade no trabalho.

Ainda pelo desconhecimento desta disciplina é muito difícil realizar projetos 100% ergonômicos. Isto porque o Ergonomista não consegue permear as estruturas da empresa de maneira a garantir que todas as transformações sejam realizadas. Na realidade, verifica-se que um percentual pequeno das recomendações dos estudos ergonômicos tradicionais é aplicado.

Inúmeros fatores podem contribuir para que isto ocorra como, por exemplo:

-a complexidade dos processos de transformação / a resistência à evolução dos conceitos tradicionais já implantados nas organizações.

-as dificuldades de interação com outros profissionais, ou de realização de trabalho conjunto

-as dificuldades financeiras da empresa para implantar as soluções

-as características específicas das empresas, as dificuldades financeiras para implantar as soluções

-o caracter pontual e pouco abrangente da maioria dos estudos ergonômicos, que muitas vezes ficam restritos a avaliação do trabalho (os contratos finalizam na avaliação ergonômica ou na elaboração das recomendações).

- a dificuldade da Ergonomia em quantificar os resultados (relações custo/ benefício)

-a dificuldade de encontrar produtos e soluções ergonômicas no mercado para especificação

Em função deste contexto, a ERGON PROJETOS desenvolveu uma metodologia própria para a viabilização da Ergonomia, que está fundamentada na elaboração de aproximadamente 80 intervenções ergonômicas no Brasil.

Esta metodologia pressupõe:

  • a criação de interações verticais e horizontais em três níveis simultaneamente :-dentro das empresas, junto aos fornecedores de serviços , produtos e mão de obra, assim como junto a clientela e população em geral ( vide gráfico 1).
  • a elaboração de um anteprojeto ergonômico e ou plano de ações a serem negociados após o diagnóstico preliminar e antes de qualquer atuação ou correção ergonômica ( vide gráfico 2)
  • o repasse de know how para empresa tanto no que diz respeito à metodologia ergonômica (a formalização de grupos de trabalho/ Comitês de Ergonomia, ou envolvimento dos técnicos da empresa diretamente nas intervenções), e no que diz respeito à gestão do projeto ergonômico (a negociação de sessões de controle e validações ao longo do trabalho com os técnicos e gerentes e diretores da empresa)

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Gráfico 1. A abrangência da atuação da Ergonomia. As ações necessárias em três níveis: empresa, fornecedores, clientes.

Considerando mais detalhadamente a metodologia de intervenção ergonômica desenvolvida (vide gráfico 2), verifica-se a importância das etapas de elaboração de anteprojeto ergonômico e de negociação (gráfico 2) que são cruciais para atingir resultados e transformar o trabalho. Estas etapas não são descritas na Ergonomia tradicional.

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Gráfico 2. A metodologia de intervenção desenvolvida

Com a metodologia desenvolvida provoca-se quatro tipos de resultados à curto, médio e longo prazo, a saber:

  • A criação de grupos ou comitês de Ergonomia dentro da empresa que cuidarão da continuação dos projetos ergonômicos e que produzirão um efeito multiplicador. ( As empresas nas quais atuamos formalizaram comitês ou setores de ergonomia, especializaram seus técnicos e continuam a realizar intervenções ergonômicas. Ex. : Telerj, Petrobrás, Metrô-RJ)
  • a formalização de setores de referência em Ergonomia na empresa. São ergonomizados setores ou situações que servem como projeto piloto e como situações de referência dentro das empresas. A partir desta situação são levantados e quantificados os resultados das intervenções ergonômicas para a empresa, assim como para os funcionários. Exemplo: Projetos realizados na SHELL, SOUZA CRUZ, RIOMAR, BENEFICIENCIA PORTUGUESA, COSIGUA, PETROBRÁS. A partir dos resultados negocia-se a continuação dos trabalhos em Ergonomia.
  • a ergonomização dos produtos oferecidos no mercado. A partir da avaliação de escritórios informatizados foi possível definir o Projeto de mobiliário dinâmico para informática produzido pela ZAGROS desde 1991, e a redução da altura das cadeiras (ZAGROS), e o desenvolvimento de acessórios para informática. Ainda desta maneira provoca-se uma certa demanda de ergonomia vinda dos fornecedores das empresas.
  • o repasse de informação para o público e clientela Exemplo: desenvolvimento do Software sobre postura nos postos de trabalho informatizados (jogo eletrônico), e Projeto das informações a serem repassadas para os clientes sobre Ergonomia ,ou sobre a empresa Ex.: Catálogos da ZAGROS e folders e panfletos das Centrais de Atendimento.

Para ilustrar a metodologia descrita apresentamos a seguir dois estudos de caso:

  • A Avaliação e Projetos de Centrais de atendimento
  • A avaliação e ergonomização de escritórios informatizados

CASO 1 - AVALIAÇÃO E PROJETOS DE CENTRAIS DE ATENDIMENTO

Foram realizadas quinze intervenções ergonômicas em empresas diferentes. Algumas Centrais foram estudadas para serem remodeladas e outras foram objeto de um novo projeto.

Em todas as Centrais partiu-se de avaliações iniciais, preliminares, chegando-se até a elaboração de um anteprojeto e ou plano de ações em conjunto com os técnicos e operadores. Este anteprojeto foi negociado e aprovado o investimento necessário pela Diretoria das empresas.

O plano de trabalho de ações contemplou as mudanças e transformações à curto, médio e longo prazo:- na organização do trabalho, na conscientização dos operadores e clientes, na formação, no estabelecimento do conforto ambiental, na ergonomização dos postos de trabalho, na reestruturação da informação escrita (telas, manuais, informativos).

Resultados concretos obtidos à curto e médio prazo:

Organização do trabalho

Foram implantadas pausas a cada hora trabalhada e renegociado o controle no trabalho Ex: TELERJ. Foram estabelecidas áreas de relaxamento e cantinas e ginásticas de pausa Ex.: Golden Fone, Telerj, SHELL. Foram estabelecidos pontos de auto aprendizagem em suporte aos Learnings Centers e a formação presencial Ex.: SHELL

Conforto Ambiental

Foi introduzido tratamento acústico e correção da iluminação direta Ex. TELERJ, ICATU, BANCO NACIONAL, GOLDEN FONE, SHELL, assim como foi projetado o equilíbrio correto das luminâncias e introduzidas cores no ambiente de trabalho. A nova Central da GVT não possui divisões entre os atendentes favorecendo o máximo a cooperação.

Conscientização dos funcionários/operadores e gerência

Foram realizados programas de conscientização, palestras sobre: stress, doenças ocupacionais, ergonomia, ginástica de pausa, fonoaudiologia, e cursos de línguas para os funcionários de teleatendimento e outros. Ex.: TELERJ, NACIONAL.

Produtos oferecidos no mercado

Foi realizado todo um trabalho com os fabricantes de mobiliário para produzir e oferecer produtos ergonômicos que pudessem ser especificados para as Centrais de Atendimentos.

Foi projetada em 1991 pela ERGON PROJETOS a mesa ergonômica e dinâmica para informática, que possui regulagens independentes e contínuas nos planos verticais e horizontais para tela e teclado, permitindo a alternância postural do usuário sentado e que todos trabalhassem com os pés apoiados no chão. Na época o único fabricante que se interessou em promover modificações foi a ZAGROS. De acordo com os outros fabricantes, não existia mercado para este produto.

Após a fabricação das mesas durante dois anos, outros três fabricantes desenvolveram mesas similares, adotando o mesmo conceito desenvolvido pela ERGON PROJETOS. Hoje só a ZAGROS tem 10.000 postos instalados só em Centrais de Atendimento.

A mesa regulável por sua vez possibilitou a redução da altura dos assentos das cadeiras produzidas no Brasil. As cadeiras nacionais que tinham regulagem de altura a partir de 46 cm, até mesmo a partir de 56 cm, têm hoje a altura do assento regulável a partir de 40 / 41 cm , o que ainda não é o ideal mas está adequado a um número maior de pessoas ( Cadeiras da ZAGROS e REMANTEC).

Ainda foram desenvolvidos acessórios ergonômicos para o mobiliário já existente em algumas empresas: apoio de pé regulável, apoio de monitor regulável, apoio de palma.

As cadeiras e mesas reguláveis foram adotadas pelo NACIONAL, GOLDEN FONE, e os acessórios ergonômicos para o mobiliário existente foram adotados pela TELERJ, O GLOBO, NACIONAL.

Recentemente foi desenvolvido um biombo acústico especial para centrais de atendimento que foi premiado no Concurso de Design do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia 2000.

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Foto 1: Biombo articulável acústico Foto 2: Célula ergonômica

 

No que concerne ao ambiente físico de trabalho foi desenvolvido um novo conceito de iluminação indireta que evita ofuscamento e reflexos que é conjugada com o projeto acústico do ambiente: projeto de dupla forração com utilização de baffles .

E ainda foram desenvolvidas divisórias acústicas especiais, com revestimento especial contra acumulação de poeira.

Melhoria do Processo Informacional/ Informação escrita

Foram remodelados manuais de consulta das Centrais. As informações escritas foram analisadas, avaliadas, hierarquizadas a apresentadas de forma mais ergonômica ,assim como se criou um banco de imagens para que o próprio usuário atualizasse as informações. Isto diminuiu o tempo de procura destas e conseqüentemente o tempo de atendimento. Ex.: NACIONAL

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Foto 3: Manual de consulta desenvolvimento

Softwares

Foram desenvolvidos softwares específicos para Centrais de Atendimentos. Estes foram desenvolvidos considerando o uso, otimizando a detecção de informação assim com a navegação. Ex.: ICATU

Criação de Grupos de Ergonomia/Acompanhamento da população envolvida e da evolução do projeto da Central. A partir da intervenção ergonômica foram criados comitês de Ergonomia para o prosseguimento dos trabalhos Ex.: Telerj

Conscientização da necessidade dos investimentos futuros em Ergonomia. Todas as Centrais passaram a adotar programas de melhoria em Ergonomia e Qualidade de Vida.

O grande desafio a longo prazo será o de atuar na conscientizando do cliente, revendo todo o repasse de informação escrita da empresa para este, assim como evoluindo na concepção e negociação de novas formulas de organização do trabalho de maneira a trazer aspectos positivos para a mão de obra envolvida, para a empresa e para o cliente.

Os índices do trabalho deverão também ser quantificados tais como: a redução do erro, o ganho em produtividade, a redução da tensão, ansiedade e sofrimento na situação de trabalho, a redução de doenças profissionais, o grau de satisfação do cliente, a redução da taxa de gerenciamento da mão de obra, a redução de absenteísmo.

 

CASO 2- A AVALIAÇÃO DE ESCRITÓRIOS INFORMATIZADOS

Em relação a ergonomização de escritórios informatizados trataremos do exemplo da SHELL Brasil.

Através de uma iniciativa do departamento de saúde ocupacional da SHELL, a ERGON PROJETOS, realizou uma avaliação inicial nos escritórios da matriz. Nesta avaliação verificou-se que 55.9% das pessoas utilizavam os computadores mais de 80% do tempo total de trabalho e que existiam problemas de postura e fadiga visual no trabalho. Estes problemas estavam relacionados ao dimensionamento incorreto dos postos de trabalho ( de 486 postos de trabalho levantados 56.9% das pessoas não apoiavam o pé no chão, e 90.9% possuíam cadeiras com encosto fixo com ligeiro apoio lombar), a exposição de fontes luminosas (88.4% dos postos de trabalho tem reflexos de luminárias e outras fontes de luz), e a falta de conscientização dos funcionários. Foi estabelecido através de um diagnóstico inicial um plano de ações a curto, médio e longo prazo. Este plano, assim como, os investimentos necessários foram então negociados com o departamento de saúde ocupacional e com a direção da SHELL Brasil. A partir do programa de trabalho foi necessário interagir também com técnicos da empresa do setor de projetos, compras e sobretudo com os fornecedores da SHELL.

RESULTADOS CONCRETOS:

Ao longo de um ano foram ergonomizados 219 postos de trabalho:

  • Foram trocadas mesas e cadeiras em todo o prédio da matriz/ RJ. A troca de mesas retas por mesas em "L" visou também um ganho de espaço. Obteve-se assim um aumento das superfícies de trabalho e a partir do rearranjo dessas novas mesas uma economia de área ocupada por mobiliário.
  • Foram introduzidos acessórios nos postos de trabalho (apoio de pé, suporte de palma, suporte para elevação das telas, tela anti-reflexiva , suporte para documentos),

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Foto 5: Acessórios para informática

 

  • Foi também concebido um programa de treinamento on the job (no próprio posto de trabalho) em relação a postura e a regulagem correta a ser realizada por cada pessoa.
  • Foi implantado em rede interna um courseware sobre postura no trabalho informatizado. O software desenvolvido para a SHELL pela ERGON PROJETOS, fundamenta-se no conceito de autoaprendizagem em saúde, em rede. O software está baseado em um jogo eletrônico que convida o funcionário a aprender brincando, e a participar da correção dos postos e ambiente de trabalho de um escritório fictício. Para isto são oferecidos ao funcionário armas poderosas: uma série de acessórios ergonômicos que ele distribuirá em cada situação do trabalho. No mesmo programa está ainda a sua disposição um livro eletrônico que ele poderá acessar a qualquer momento para adquirir competências e para solucionar os desafios do jogo, além dos vídeos com ginástica laborativas que poderão ser consultados ao longo da jornada de trabalho.

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Foto 6: Software de Postura no trabalho Informatizado

A partir destes trabalhos podemos mencionar alguns resultados imediatos:

1) Inúmeras pessoas passaram a solicitar os acessórios ergonômicos ao setor de compras. (Convém notar que a curto prazo foram contempladas só as pessoas que utilizavam mais de 80 % do tempo de trabalho o terminal.)

2) Os funcionários passaram a demandar cópias do software sobre postura para levarem para casa e ensinarem seus familiares que usam computadores

3) As pessoas passaram a refletir sobre a postura no dia a dia e hoje é freqüente a consulta à nossa equipe para tirar dúvidas, o que provalvelmente justificará colocar a disposição dos funcionários um help/ on line .

Em relação ao conforto ambiental, foi adotado o equilíbrio correto das iluminâncias no ambiente de trabalho. Foram trocadas as cores de divisórias, piso e mobiliário.

A iluminação também foi trocada visando a melhoria do nível de iluminamento e redução do ofuscamento e reflexos, e contribuiu para a redução do consumo de energia anual em 30%.

Além do benefício para a empresa o trabalho ergonômico permitiu a entrada no mercado novos produtos ergonômicos. A SHELL autorizou a comercialização do software que está a disposição de qualquer empresa, assim como seu fornecedor passou a produzir e a comercializar os acessórios desenvolvidos para a ergonomização dos postos de trabalho.

Convém ressaltar que todos as melhorias obtidas foram fruto de uma intensa negociação com as empresas e resultado do trabalho conjunto da ERGON com os técnicos e dirigentes destas. Isto mostra que apesar das dificuldades de fazer ergonomia, não é impossível transformar o trabalho, e que os ganhos finais na verdade são revertidos para todos. Entretanto a evolução correta do trabalho humano passará pela sinergia cada vez maior entre as áreas de competências hoje disponíveis.

A metodologia apresentada foi também validada em outras intervenções em: Salas de Controle (METRO, REFAP, REDUC, RELAN, REPAR, COSIGUA , CBE), Agências de Atendimento (GOLDEN CROSS, LAB SERGIO FRANCO, BRADESCO, BANCO NACIONAL, ICATU, GVT, GENERALI, JORNAL O DIA) , Indústrias (SOUZA CRUZ/ Ub, SOUZA CRUZ/ S.C., COSIGUA, BR), Unidades de Tratamento Intensivo (RIOMAR, SANTA CASA, H. CAXIAS, BENEF. PORTUGUESA, HOSPITAL DO AMPARO FEMININO), creches, escolas, laboratórios e em muitas outros situações de trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Santos, V.; Zamberlam M. C., 1995. Projeto Ergonômico de Salas de Controle. Fundación Mapfre, São Paulo.

Cakir, A.; Hart, D.T.; Stewart, T.F., 1980. Les Terminaux a l’écran. Les Editions d’organisation, Paris.

 

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